A russa

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

 

 
Tenho o costume de me imaginar no lugar de outras pessoas, principalmente em situações peculiares, quando alguém me chama a atenção, e esse exercício muitas vezes acaba virando uma reflexão, ainda mais quando a pessoa em questão tem algo de muito comum comigo.
Numa dessas manhãs de inverno em Budapeste, num sábado gelado, com uma garoa constante de zero graus (um dos piores tempos, cinza, com a chuva mais gelada que pode cair sem virar neve) saímos eu, meu marido e meus dois meninos para fazer uma comprinha na mercearia mais próxima. Um programa de família nada interessante, mas ainda assim, melhor que ficar no apartamento o dia todo, e iríamos comprar umas guloseimas para uma merecida sessão de filme ao lado da lareira a tarde.
No caixa, à nossa frente, uma senhora muito velhinha, elegante, num casaco de peles que deveria ter algumas décadas e um chapéu que combinava e, provavelmente, tinha a mesma idade do casaco, com dificuldade tentava colocar sua compra no seu carrinho de feira. Vendo seu esforço, meu marido se propôs a ajudar e ajeitou tudo com cuidado, depois arrastou o carrinho para ela até a porta, onde ela agradeceu com aquele olhar distante que alguns velhinhos tem quando preveem uma difícil tarefa a sua frente.
Terminamos de arrumar o nosso carrinho, pagamos nossa conta e saímos, dando de cara com a senhorinha ainda puxando com muita dificuldade sua comprinha até a faixa de pedestre, onde ela teria que atravessar. Reparamos em sua expressão de aflição por esperar a hora certa de atravessar a rua movimentada - e ainda carregar o carrinho pesado - e resolvemos perguntar se ela precisava de ajuda. Fui atravessando na frente com meu carrinho e fazendo os carros pararem, enquanto meu marido carregava o carrinho dela com uma mão e a levava pela outra, bem devagar. Seus passos lentos exigiram paciência do trânsito, que agiu com a devida calma. Seu apartamento ficava logo ali, de frente à mercearia. Perguntamos se ela queria que levássemos as compras até a sua porta e timidamente ela aceitou. Assim foram, meu marido e meus filhos, de elevador até o quinto andar, cada qual carregando uma coisinha e a levando pela mão, enquanto eu esperava com a nossa compra do lado de fora. Depois de uns minutinhos, saíram satisfeitos e felizes por terem ajudado.
Meu marido comentou:
- Que bom que a ajudamos! Sabia que ela é russa?
Foi então que me coloquei no lugar daquela senhora tão velhinha e elegante.
- Veio para a Hungria porque casou-se com um húngaro e ficou por aqui. Precisa ver que bonitinho o sotaque russo dela, igual o sotaque dos filmes...
Em questão de segundos eu me tornara aquela mulher sozinha em Budapeste, esforçando-me para levar a comprinha para casa num dia frio...
- Era a comprinha da semana e ela ficou muito grata por termos ajudado. Foi realmente muito bom os meninos verem como é gostoso ajudar alguém. Ela disse que iria procurar algo para dar para as crianças e eu disse a ela que eles já haviam ganhado o suficiente ajudando-a. Eles ficaram muito orgulhosos.
Eu não consegui comentar na hora sobre como estava orgulhosa deles porque senti o enorme peso do tempo e do espaço entre o país que nasci e onde me encontrava no momento, na fria garoa de Budapeste, sozinha. Senti-me no lugar daquela senhora como uma viagem no tempo, velhinha, depois de tantos anos vivendo em outro país, mas ainda com um sotaque que carrega a marca de uma pátria distante, ao mesmo tempo, tão limitada àquela rua de Budapeste, àquele pequeno apartamento no quinto andar... Seria o meu futuro?
Encontros assim são como ver uma assombração. Um medo inesperado surge tomando conta do consciente e uma sensação real de instabilidade te pega pela mão, mesmo depois de tão adaptada à nova pátria, mesmo cercada por uma família... É difícil explicar o porquê de temer a solidão num lugar que você já chama de casa, mas às vezes eu me deparo com ele, mesmo estando tranquila e feliz com minha localização, minha vida de expatriada. Creio que seja um efeito colateral de quem deixa seu berço, seu país de origem. Lembro-me que esse mesmo sentimento me invadiu na minha primeira visita ao cemitério onde a família do meu marido está enterrada. Imaginei o quão solitária eu estaria enterrada longe do Brasil. Que besteira! Logo eu que não acredito ser tão importante onde me enterram... Se existe vida após a morte, não é no cemitério que vou morar, isso tenho certeza!
Porém, sempre que um pensamento desses me toma, eu me lembro do quanto já sofri por antecedência, pensando em como será difícil minha vida na Hungria e o quanto já me enganei com isso! Já chorei por achar que jamais falaria a língua corretamente, que jamais teria meus próprios amigos por aqui, que não conseguiria visitar minha família com frequência depois de ter filhos... Mas tudo isso foi se resolvendo e o presente nunca foi tão dramático quanto minha imaginação de futuro. A luta sempre foi mais calma que minha expectativa.  
Acabar sozinha é triste, mas não é questão de geografia, é o resultado de uma longa vida e muitos fatores que o cercam. Eu estou aqui sentindo pena daquela senhora, mas não sei sua história, nem sei se ela é triste, ou solitária! É possível que ela tenha uma família que não se reuniu justamente naquele dia e seu rosto apenas refletia aquele tempo feio, que também estava estampado em nossas caras.
Morar fora do país nem sempre são flores. Tem cada ideia que passa por nossas cabeças as vezes que dá vontade de pular no Danúbio... Mas lembrar de não dramatizar e deixar as coisas acontecerem é muito importante.
Eu respiro fundo, coloco meus óculos de visão positiva e percebo a beleza de ter um apartamento com lareira, uma família da qual eu posso me orgulhar e morar num país onde as pessoas na rua ajudam velhinhas a levar sua compra até a casa.
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